Filosofia e Ética Aula 01
Friday, March 11th, 2011 | Author: Jax

Objetivos e Introdução

Objetivos

  • Descrever o surgimento do povo grego e de sua cultura.
  • Apresentar uma definição de mito.
  • Caracterizar a passagem do mito para a filosofia.
  • Definir a filosofia, distinguindo-a do mito.

Introdução

Toda cultura brota do chão da vida de um povo. Sob a chuva e o adubo dos fatos dessa vida, ela cresce, se diversifica e se enriquece. Assim, toda cultura brota de uma história concreta e tem, por sua vez, uma história desse nascimento. Nesse contexto, a cultura vai assumindo formas e modalidades variadas. Desse modo nascem os elementos que formam a identidade de um povo. Os exemplos disso são vários: o futebol faz parte da cultura do brasileiro, da sua identidade; por outro lado, os relatos de mula-sem-cabeça, boitatá e saci-pererê compõem a história e a realidade que várias pessoas do interior do Brasil usam para explicar alguns fenômenos que ocorrem na natureza e que elas não conseguem explicar através de seus estudos.

Seguindo esse caminho podemos dizer que a cultura grega brotou do chão da vida de um povo, o povo chamado grego. Esse povo é resultado da miscigenação ou mistura de várias tribos indo-européias. Essas tribos primitivas tinham populações que viviam na península balcânica e em vários lugares onde os grupos que formaram o povo grego (também conhecido como helênico) começaram a penetrar. Essas misturas começaram em mais ou menos dois mil anos antes do nascimento de Cristo; portanto, por volta de 4.000 anos atrás.

Indo-europeus = Conjunto de povos formadores da civilização que hoje conhecemos como européia.

 

Veja, num mapa da Grécia antiga, o lugar sobre o qual falamos até agora.

© Eduardo Rodrígues
Mapa Grécia – clique para ampliar

O povo grego era portador de múltiplas tradições, pois era fruto da mistura de muitas tribos. Sua primeira organização social aconteceu na sociedade cretense. A vida dos cretenses apresentava uma enorme organização e uma maneira de viver bem diferente daquela dos povos vizinhos. Essa forma de viver foi se expandindo devido às invasões e conquistas que o povo cretense realizava. Essa expansão aconteceu até o momento em que eles encontraram outras culturas também muito organizadas (não há um nome específico para essas culturas). No encontro e confronto desses mundos diferentes, as tradições que existiam foram destruídas e uma nova cultura foi formada.

Cretense = Sociedade formada pelos povos que habitavam a ilha de Creta.

O embate dos dois mundos deu origem à desintegração das instituições minóico-micênicas. Isso causou o fechamento dos grupos helênicos em si mesmos. Eles pararam de realizar comércio com os povos vizinhos e reorganizaram toda a cultura de seu povo, de suas tribos. Essa mudança ou gestação cultural ocorreu entre os séculos XII e IX a.C. O caminho exato desse processo não é possível de ser acompanhado muito de perto por nós. Hoje em dia temos escassez de documentação e de relatos a esse respeito. O certo é que, por volta do século VIII a.C, encontramos sinais de um mundo helênico ou grego já constituído, cantado em poemas de grande valor, como os atribuídos a Homero (Ilíada e Odisséia) e os poemas de Hesíodo (Os trabalhos e os dias e Teogonia).

Minóico-micênica = Forma pela qual era chamada a cultura do povo que habitava a ilha de Creta e seus domínios.

Helênico = Aqueles que vivem ou que vem da Grécia ou Heléade.

Homero = Grande poeta grego responsável pela formação de uma parte da identidade cultural do povo grego. As datas de seu nascimento e morte são polêmicas entre os especialistas, pois é muito difícil precisar essas datas.

Hesíodo = outro importante poeta grego, responsável pela formação da identidade do povo grego juntamente com Homero. As datas de seu nascimento e de sua morte também são de difícil precisão.

Um exemplo significativo da importância das mudanças e da cultura desse povo vem da narração de suas guerras, de suas brigas, de seus heróis. Homero, o poeta, e Hesíodo, o contador de histórias, foram os dois homens que escreveram sobre como essa cultura se formou. Assim, temos heróis como Hércules, Aquiles, Ulisses; deuses importantes como Zeus, Hera, Poseidon; animais diferentes como o Minotauro, a Medusa, ou o cão de três cabeças (Cérbero).

© Wikimedia Commons
Antonio Pollaiuolo (c.1432-1498) “Hércules e a Hydra” c. 1475, Tempera na madeira, 17 x 12 cmGalleria degli Uffizi, Florença.

O mito e suas funções

Nos tempos remotos dos séculos XII a IX a.C, a cultura grega – como todas as culturas antigas – encontrou no mito a forma privilegiada de se estruturar e de se organizar. Compreender o significado, a estrutura e a linguagem do mito é muito importante se quisermos ter acesso à cultura helênica.

A força propulsora do mito – aquilo que desafia o homem a produzir mitos – é o mistério que envolve a vida e o ser. O homem sente-se como que jogado na existência, no meio de vários fenômenos que o desafiam. Para esses fenômenos, o homem promove uma organização, uma ordenação, que tem a função de dar significado à vida, dar uma razão ou explicação para as coisas que acontecem. Essa necessidade do homem acontece não só em função da sobrevivência física ou biológica, como todo animal, mas também em função da sobrevivência psicológica e social do homem; aquilo que nos torna seres humanos. Justamente essa forma radical de dar significados aos fenômenos que acontecem no mundo liga o homem a algo que ele não tem acesso, ou seja, liga o homem a algo transcendente ao processo de formação do universo e de sua própria história.

Transcendente é aquilo que está para além da razão humana; é aquilo que os homens não conseguem determinar o que seja.

A estrutura do pensamento mítico (aquele pensamento que vem ou deriva do mito) é, portanto, uma estrutura dualista. O que isso quer dizer? Isso significa que o mundo real, físico ou social, é marcado pela carência de significados. Esse mundo real é o contrário do mundo do sagrado. Para o mito, o mundo do sagrado também é real, apesar de ser muito maior do que possamos entender, ou seja, transcendente. O mundo dos deuses é o contrário do mundo empírico (esse mundo das experiências e sensações em que vivemos), pois o mundo dos deuses é o mundo da perfeição, da imortalidade, um mundo de significado pleno. É justamente pelo fato de ser diferente do mundo empírico (das experiências e sensações) e por ir muito além dele (de transcender o mundoempírico) que o mundo dos deuses pode explicar as coisas que acontecem neste mundo em que vivemos. Assim, as coisas que os mitos contam dão sentido ao mundo em que vivemos.

Mítico = aquilo que deriva ou vem do mito. Aquilo que se relaciona ao mito.

Empírico = Aquilo que deriva da empiria, ou seja, da experiência que vem dos sentidos humanos.

Outro elemento constitutivo da interpretação mitológica da realidade – e que mostra as coisas que o mito conta – é o que chamamos domínio absoluto da exigência do sentido. Isso significa que, quando o mito conta algo ou esclarece um fenômeno da natureza, ele pretende explicar todos os fenômenos parecidos e que acontecem a todo o momento. Para a abordagem mitológica, a procura do significado das coisas e dos fatos se impõe sobre tudo. Essa necessidade de explicar e dar sentido a tudo e em todo lugar apóia-se na fantasia ou na imaginação.

Mitológico = Aquilo que deriva do mito, ou seja, um conjunto de estruturas que derivam do mito.

Quando apoiamos as explicações dos fenômenos na fantasia e na imaginação, damos lugar a uma criação incontrolada de explicações (mitos) acerca desses mesmos fenômenos. Quando tudo isso ocorre, nasce a função do mito. Mas qual seria a função específica do mito?

A função do mito é clara: fundar uma realidade, explicar a existência das coisas. Contudo, essas explicações somente acontecem com a ajuda de alguns seres: os deuses, os heróis. Contando a história dos heróis conhece-se a história do grupo de onde viemos, a história de como o mundo foi criado e por que vivemos com esses costumes e não outros. O mito explica tudo que envolve a vida das pessoas que acreditam em sua explicação.

Os mitos traçam os vários caminhos de existência humana, dos possíveis significados que ela pode alcançar. Nesse sentido, o mito descreve não somente o significado das coisas mas também quais são os comportamentos válidos para o grupo em que se vive. Os mitos descrevem o caminho da evolução da humanidade. Eles não são puro delírio da fantasia ou atestado de incompetência racional dos povos antigos. Pelo contrário, através do mito sente-se nascer o questionamento que mais tarde – e de forma bem mais complexa – a razão explicitará melhor com o nome de ciência.

A abordagem fantástica da realidade, que é o mito, serviu como primeiro instrumental teórico, possibilitando ao homem viver e dar significado às coisas. Ela unificou e dinamizou os grupos humanos, ajudando-os a lutar. De outro lado, porém, a fantasia, sem o corretivo das exigências lógicas, pode tornar-se, como de fato se tornou em algumas circunstâncias, fonte de desvios e de acomodações em soluções pobres. Desvios e acomodações que alienam o homem e o tornam vulnerável à manipulação.

Veja, agora, um exemplo de como ocorria a explicação mitológica dos fenômenos da natureza.

O surgimento dos Deuses – O mito de Eco e Narciso

O surgimento dos Deuses – O mito de Eco e Narciso

No início tudo era Caos. Do Caos nasceram duas grandes forças, que foram chamadas Gaia (Terra) e Urano (céu). Urano vê Gaia e se apaixona por ela. Então o céu se aproxima da Terra e a cobre, copula com ela.

O problema começa pelo fato de que Urano era meio “tarado.” Ele não queria parar de copular com Gaia. Então Gaia pede a seu filho mais velho, Cronos, que a ajude a se livrar do pai. Cronos atende ao pedido de sua mãe. Como não conseguiria derrotar o seu pai, ele trava uma luta feroz e consegue decepar seu membro masculino, seu pênis. Do sangue do pênis de Urano saiu grande ódio. Esse ódio se transformou em grande força; essa força, em seres chamados Titãs. Depois desse fato, Urano se separou de Gaia de tal maneira que ninguém mais poderia alcançá-lo. E assim o céu se separou da Terra.

Cronos começa a se interessar por Réia, sua irmã. Começa a copular com ela. Réia passa a ter filhos. Com medo de que seus filhos façam com ele o mesmo que ele fez a seu pai e possam ocupar o lugar de governo de todos as coisas, Cronos começa a comer seus filhos. Toda vez que um nascia ele o engolia por inteiro. Por um pedido de Réia à sua mãe Gaia, quando um de seus filhos nasce ela o esconde dentro das entranhas da mãe. Esse filho foi chamado de Zeus e foi criado por sua avó Gaia e por seus tios, os Titãs. Quando cresce, ele se revolta com a maneira como seu pai trata sua mãe e luta com seu pai. Ele vence a batalha com a ajuda de seus tios, os Titãs. Zeus então se torna o rei dos deuses.

O problema aconteceu quando Zeus casou-se com sua irmã, Hera. Zeus era muito ”mulherengo” e Hera muito “ciumenta”. Hera fazia uma “marcação cerrada” em cima dele. Mas Zeus não podia ver um “rabo de saia” que logo ia atrás. Numa dessas tentativas, ele tem uma idéia. Ele chama uma das musas ou ninfas que viviam no Olimpo, a casa dos Deuses, para tapear Hera enquanto ele mantinha relações com uma mortal. Essa musa era chamada Eco. Ela tinha o poder de envolver as pessoas enquanto falava. Todas as vezes que ela falava, as pessoas iam ficando sonolentas e entravam em transe. Para que Eco o ajudasse, Zeus prometeu que se ele conseguisse o que queria lhe daria o amor de Narciso, o homem de quem ela gostava. Então Eco realiza o que Zeus havia pedido. Contudo, depois de um tempo Hera descobre tudo. O problema era que Eco era filha de deuses e, por esse motivo, Hera não poderia matá-la. Contudo, Hera dá um castigo eterno para Eco: todas as vezes que alguém falasse com Eco ela não conseguiria conversar, somente repetir as últimas palavras que lhe foram dirigidas.

Eco desce do monte Olimpo e estava andando nos bosques. De repente ela encontrou Narciso, seu amor. Narciso fica impressionado com a beleza da ninfa e tenta conversar com ela. Devido ao castigo de Hera, Eco somente repetia as últimas palavras do rapaz, não conseguia conversar com ele. Muito chateado com isso, Narciso sai correndo e se depara com um grande lago. Ao abaixar-se para beber um pouco de água, ele depara com sua própria imagem. Ao ver uma imagem tão bela, fica impressionado e tenta alcançá-la. Ao fazer isso, ele cai no rio e, como não sabia nadar, morre afogado. Pelo fato de ser um homem muito belo – considerado o homem mais belo de todos – as ninfas fizeram surgir uma flor no lugar onde ele caiu. Essa flor recebeu o nome de flor de Narciso.

Vendo a morte de seu amado, ainda mais sendo provocada por sua impossibilidade de conversar com ele, Eco fica muito triste. Assim, ela foge para dentro de uma caverna. Lá na caverna ela vai ficando cada vez mais triste. Devido a essa tristeza, ela endurece o seu coração e, aos poucos vai se transformando em pedra. Depois que ela se transformou em pedra, para que ela nunca fosse esquecida, suas irmãs, as ninfas, alteram a natureza e baixam uma norma que diz que “quando alguém entrar numa caverna e conversar lá dentro, suas últimas palavras serão ouvidas de volta.” Isso faria com que ninguém nunca se esquecesse de Eco.

Com esse mito, não somente foi explicado o fenômeno físico denominado eco, como também foi explicada a origem de uma flor que nasce e se desenvolve dentro da água. Essa era a função do mito.

Os formadores da cultura grega: Homero e Hesíodo

Na história do pensamento grego, Homero e Hesíodo marcaram seu início. Eles trabalharam em cima de algo que já existia e que era riquíssimo e variadíssimo: o material mitológico. Trabalharam com tanto afinco e genialidade que foram capazes de reanimar, organizar e recriar o patrimônio tradicional, enchendo-os de vigor e consistência. Isso ocorreu de tal forma que eles se tornaram os consolidadores e propagadores dessas tradições, tornaram-se os intérpretes da cultura grega. Homero, nesse caminho, passou a ser visto como o pai da cultura helênica.

A situação relatada por Homero aponta uma série de pequenos Estados, praticamente autônomos, sob a liderança de um personagem chamado basileus mas que, na verdade, é um homem nobre ao lado de tantos outros companheiros nobres. Sua liderança é muito mais o fruto de uma amizade e lealdade, um acordo classista, do que de um sistema político ou da força de uma única pessoa. Isso constitui o inicio das Cidades-Estados que, por enquanto, são estruturalmente sociedades aristocráticas, ao lado, ou melhor, acima da população do campo, a qual, apesar de explorada e dependente, goza de certa autonomia também cultural.

Basileus = Nome que se dava a essa figura de liderança que, hoje em dia, corresponde ao rei. A palavra rei passou a ser usada no sentido que conhecemos hoje somente na Idade Média.

Essa diversidade de situações culturais dá a possibilidade de compreender as duas versões culturais diversificadas – embora articuladas – que encontramos em Homero e em Hesíodo. Os dois não estão longe no tempo, tendo em vista que a diferença cronológica entre eles não passa, como se aceita comumente, de meio século. O que realmente pesa na diversidade cultural mítica desses dois gênios é a posição ou o lugar social de cada um, o lugar do qual cada um deles experimenta a realidade grega e, daí, traça o próprio destino.

Homero descreve uma sociedade de nobres, loucos por riquezas, triunfos, honra e poder. Para eles, o significado da vida encontra-se no heroísmo guerreiro, fruto de uma herança da época das conquistas. A virtude está na coragem para enfrentar as adversidades. Na Ilíada, o clima é de guerra (a Guerra de Tróia) e os elogios vão para os lutadores que se empenham com heroísmo, tendo em vista que irão morrer pela perspectiva normal da guerra. Na Odisséia, aprecia-se a perseverança nas tribulações, a constância nos propósitos, a prudência racionadora. Esse conjunto garante um sistema ético muito bem elaborado e semelhante aos sistemas criados posteriormente.

Hesíodo, originariamente camponês da Beócia, apresenta uma versão cultural diversa, embora se possa notar claramente sua dependência de Homero. A situação do camponês, naquela época como hoje, é muito dura. A dominação dos nobres pesa muito e o trabalho é fatigante. Nesse contexto, o que mais se preza como virtude é a justiça (díke). Ela é exigida de todos os membros da sociedade: o agricultor e o nobre. O trabalho do agricultor é visto como elemento humanizador, é ele que garante que não se cairá na loucura desmedida (hybris) e se permanecerá na visão equilibrada da vida (sophrosyne), ao lado da coragem e ousadia do guerreiro nobre. Numa sociedade que era bipartida, tentou-se lançar um fundamento para um humanismo único e articulado.

Essa procura pelo humanismo, a atitude de procura e definição de um ideal humano de vida para o homem, é justamente a característica fundamental de todo o helenismo. Nesse sentido, ele contribui para a desvinculação da concepção mítico-religiosa, ensaiando um tipo de convivência leiga, em que razão e liberdade são assumidas como fundamento da ordem sociopolítica. Contudo, a história ainda é um tecido complicado de ações levadas a cabo pelos homens, mas, em última análise, são os deuses que decidem a sua trama. Entre os deuses acontecem as mesmas disputas que acontecem entre os mortais. Enfim, eles são como que uma réplica celeste do mundo aristocrático, nobre, da Grécia

Helenismo = Aquilo que deriva da cultura grega ou os elementos que fazem a cultura grega.

Mítico-religiosa = Concepção que transforma as narrativas do mito em sistemas religiosos complexos e rígidos.

Nesse ambiente nasceu e se desenvolveu uma cultura bem formulada, bem estruturada. Essa cultura era tão certa que explicava tudo através dos deuses e dos mitos. Tudo parecia ter um sentido e um lugar certo para ficar.


Atos da sociedade grega

 

A passagem do mito para o logos ou a filosofia

Para que possa entender a passagem de um sistema de vida para outro, você deve entender o que ocorria na sociedade grega. No século VII a.C., já estavam relatados os limites comerciais das Cidades-Estados com o resto do mundo. Primeiramente, isso ocorreu nas cidades da Ásia Menor, depois na própria Grécia. O comércio e o artesanato recobravam sua importância; a classe média enriquecia e queria maior participação política; os camponeses, endividados e quase sempre escravizados pelos seus débitos, exigiam o perdão das dívidas e a reforma agrária urgente. Nesse contexto, surgiram homens oportunistas na área política, impondo-se como tiranos, que se apresentavam como árbitros nos conflitos. 

A virada cultural que começou a delinear-se no final do século VIII a.C. não foi uma ruptura histórica; pelo contrário, tratava-se de um processo de maturação de um povo que chegava ao seu fim. Essa maturação relacionava-se à totalidade da experiência de vida helênica, ao estilo de vida, à prática política nas Cidades-Estados. As normas eram objetivas e tornavam-se públicas e palpáveis, à vista e sob o poder de todos.

Outro fator importante para o processo de mudança foi o fato de que a própria tirania acelerou o processo de mudança da cultura e da sociedade grega. Os próprios tiranos atribuíam a destruição e decadência das Cidades-Estados aos seus cidadãos, não aos deuses. Isso criou um espaço de grande importância para o surgimento da consciência de que as instituições repousam na vontade e na determinação dos cidadãos; são fruto do jogo de forças que se defrontam. Nesse jogo, a palavra torna-se instrumento político de primeira ordem, e sua eficácia, do ponto de vista concreto, está muito na dependência da habilidade de quem a maneja. O que valia, então, não era mais a vontade dos deuses; o que valia era aquilo que os homens votavam dentro das cidades.

Pelo crescimento da necessidade de alimentação e expansão das Cidades-Estados, houve a necessidade de aumentar a produção agrícola. Para isso, os gregos apoderaram-se das descobertas feitas pelos egípcios e babilônicos e criaram um saber que os ajudasse em suas necessidades. Esse saber era teoricamente organizado e racionalmente crítico; era o nascer do conhecimento científico, o nascer da ciência.

O que se entende por ciência, nesse contexto, é o saber organizado e claro de conhecimentos, em oposição a uma simples posse de conhecimentos vazios ou amontoados de qualquer forma. Foram justamente os gregos que deram forma e consistência teórica às tentativas de controlar as experiências espontâneas.

Como exemplo disso, temos o conhecimento da geometria. Ela foi montada como uma ciência, e oferecia uma nova possibilidade de entender os limites de espaço das coisas. O espaço sem deuses e geometrizado (desenvolvido e explicado pela geometria) se revelou como novo critério de organização da realidade. Nesse mundo e com essas novas explicações, perdiam sentido as diferenças de qualidades que eram criadas pela mentalidade do mito. A ordem social tinha que ser racional e traduzir a medida exata entre as pessoas.

O significado dessa mudança cultural encontra-se no fato de que, nesse momento, o homem tomou consciência da maneira como elaborava suas interpretações sobre o mundo. O homem passou a submeter todas as regras ao seu controle, não mais ao controle dos deuses. Agora o homem tinha de justificar por que agia dessa maneira e não de outra. Contudo, as necessidades dos homens continuavam as mesmas. O que mudou foi a forma de solucioná-las e justificar a solução que se conseguiu.

A partir de então, a razão, suas leis, suas exigências e suas dinâmicas apareceram como critério de verdade. Tudo deve passar pela visão critica; os deuses ficam de lado. Nesse instante, Filosofia e ciência nasceram. Contudo, de início não era clara a diferença entre elas. Filosofia e ciência se identificavam. O homem abandonou as explicações míticas e tomou posse do caráter racional de seu ser e elevou sua razão à categoria de critério absoluto da verdade. A razão se impôs sobre a sensibilidade, sobre a fantasia e a emoção.

Todas essas mudanças culturais dão um fruto concreto: a Filosofia. Assim nasceu o pensamento crítico baseado na razão – não nos sentimentos ou nos deuses.

Resumo

Nesta aula você viu que o homem sempre busca explicação para tudo que acontece na sua vida e ao seu redor. Essa necessidade de dar significados às coisas que o rodeiam criou uma forma de explicar tudo chamada mito, que era milagrosa, religiosa, fantasiosa e dualista. O mito é milagroso, pois conta coisas que são comparadas aos milagres, ao impossível. É religioso porque une à sua explicação a ação dos deuses. É fantasioso pois se utiliza da fantasia para montar a seqüência e a união de suas explicações. É dualista porque sempre trabalha com um paralelo entre o nosso mundo e o mundo dos deuses.

Viu que, com o decorrer do tempo, o povo grego foi abandonando essa forma de explicação do mundo para uma visão mais crítica. Com uma forma mais crítica de explicar o mundo, o homem começou a usar mais a sua razão. Dessa forma, surgiu uma explicação bem diferente, que foi chamada Filosofia. Assim sendo, podemos dizer que a filosofia é crítica, racional e trabalha muito com o método que conhecemos hoje em dia com o nome de ciência.

Conforme você estudou nesta aula, o homem passou da explicação mítica para a explicação filosófica. Essa passagem demorou muitos anos e foi muito complexa.

Atividades

1. Qual é a diferença entre Homero e Hesíodo, os grandes responsáveis pela consolidação da cultura grega? Que classe da sociedade cada um deles representava?

2. Qual a relação estabelecida entre o mito e o logos ou Filosofia?

3. De que forma acontece a passagem do mito para o logos ou Filosofia?

4. Cite as características do mito e as características do logos ou Filosofia.

Fonte: www.fead.br